sábado, 5 de agosto de 2017

eu queria a indecência de você falar pra mim tudo o que eu quero ouvir

eu queria que cê se sentisse saudade
eu sei, é maldade
querer isso pra alguém
mas seria pro meu bem
eu queria que cê falasse a vontade
sobre o quanto me quer também
sobre o quanto quer
minhas unhas cravadas na tua cintura
no quanto quer o vai e vem
dos meus quadris
nos seus quadris

eu queria que cê tivesse a decência de me falar que tá louca pra de novo me encontrar.
eu queria que cê fizesse a maldade de me contar
que tá com saudade de comigo se deitar.

eu ia dizer que é cruel
ia anotar seu endereço num papel
e pegar um trem pra ir
um ônibus pra qualquer lugar
pra chegar logo pra te abraçar
e viver tudo que eu sinto falta e nem conheci
te pedir um infinito dos teus dias
nessa vida
ou em outras mais

com a benção de todos os deuses astrais.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

já três da manhã

teu seio
teu cheiro
teu cheio no meu vazio
esperneio
peço a volta
da antiga ditadura que cura e amarra minhas mãos
ata-me
a escrever cartas dilaceradas de paixão, paixãos, paixões;
jogo-me em outros colchões
desesperada
aglutino o pouco que sobra de raciocínio para montar uma fala
me cala
quando a memória falha
e transforma o ontem no hoje.

"E se" [...]
a esfera da impossibilidade
agarrada a minha ansiedade
da minha impassibilidade
em não te esconder o que via dentro de mim
- é difícil enxergar assim
tão nítido
querida, não precisava que fosse assim, tudo tão ríspido - nem parece eu e você
era assim que era pra ser?


teu desespero
em não estar
onde eu queria exatamente ficar
me dói mais que respirar.

sábado, 26 de março de 2016

o dia que foi bem mais do que pareceu ser, e bem menos do que eu gostaria que fosse

"ter o fim bem no meio // Nenhuma rima em "or" //Um começo que não veio [...]"
Tristeza não, Metá Metá

De todas as peripécias que a vida poderia me propiciar, e peças que poderiam me ser pregadas, julgo-a por ter levado o que levava meu destino que tanto não ia, e tanto que foi, até você. Agarrei-me ao não na primeira noite, e jurei pra mim que assim seria. Não foi, não era pra ser. Por sua culpa, e dessa vez não vou eximir-lhe. Infortúnio do destino, me pegou de surpresa e se aproveitou do meu desatino em desacreditar que poderia fugir da sorte no azar. Desatenta. Deixei escapar que estava gostando de gostar de tal euforia que em mim se instalava - não pude negar, e quem é que pode? Fica tão na minha cara de babaca que sonha acordada e flutua sobre o caminho que faz entre a cama e o banheiro, entre o ralo e o cinzeiro, entre a fumaça e teu cheiro. Que cheiro? Nem sei. Não era teu. Fui por ti assegurada de que poderia deixar escapar coisas que gostariam de escapar, perguntas que queriam muito enormes e urgentes dúvidas sanar, que estava permitido não escapar de ti, que não deveria meter-me no plano do arrependimento sob o leite que estava no copo, pois o leite deve ser sempre jogado ao chão. Pisoteado, e espalhado por todo o quarto deixando pegadas brancas da noite branda que tive ao seu lado. Olha, não sinta-se especial, não teve nada de anormal, mas não devo negar que eu gostaria de saber onde mais tudo poderia dar. Seria uma mentira deslavada. Não sofro, é um sentimento novo, de quem fora interrompida num gozo, numa corrida, numa terapia, numa floricultura. Não sei dizer bem ao certo, mas talvez seja apenas uma curiosidade do que é sentir saudade de você. Talvez não seja nada, talvez seja exatamente o que deveria ser.
Ponho a ti nesta folha virtual, em letras tamanho 11 para que possa-me despedir como não pude, pois os tchaus são dramáticos demais até para mim. Até para mim.
Fiz de ti um poema, uma pena. Poderia ter sido uma história. - Você talvez seja o tipo que eu prefiro, que é o tipo que sempre prefere as estórias. E quem sou eu pra opinar? - Mas nossas luas que antes despiram-se devem então despedir-se sem nem pestanejar - Deus queira que eu consiga - pra nunca mais voltar. - Deus podia querer também, que elas pudessem querer de novo se encontrar, talvez num outro tempo, talvez num outro lugar.
Mas eu não quero mais dar sorte pro azar. Deixo então a ele decidir, pois já cantava o partido mais alto "Deus dará, Deus dará".

Por hora, esqueço o caminho que por breves minutos caminhei ao teu lado, guardo o beijo impedindo-me de por a isto tudo mais sentimentalismo - não posso evitar, eu gostaria de por isso me desculpar. Na verdade, sempre parece ter mais do que carrega, mas essa culpa, dessa vez é minha, em partes, desculpe também te enganar. Mas agradeço-te por mostrar-me que não há sofrimento aqui.  

Sorte a sua não ter que aguentar a minha rima pobre e falta de classe ao falar aquilo que não me cabe calar.

segunda-feira, 21 de março de 2016

desalinho

todo beijo sucede um momento
que tem medo de acontecer
toda hora acontece num tempo
que era, antes de tudo, pra ser
os acidentes do destino
nos levam aos percursos imperfeitos
os incidentes dos desatinos
nos deixam perfeitamente inteiros
pra todos os tempos serem a si
e aquele que fora, já não sê-lo
pois é assim (que tem que ser).
eu aceito as condições
das estrelas e dos astros
aceito que talvez - é certo
eu não possa seguir seus passos
não desconfio que já nem sou
o que e quem eu costumava ser
e isso não é minha culpa
foi algo que fez florescer.
mas há um pequeno mistério
em meio a todos esses porquês
que eu já não lembro as regras
e nem preciso entender
já que me basta ir
sem parar de apreciar
as nuances a minha volta
que eu espero que cuide de mim
e de levar "eu" onde "cê" tá.
as vezes.
não vai ser sempre, pode deixar.

deixa tuas cores no ar
que é pra eu de longe
continuar a te olhar
(e não pare de brilhar)
eu não penso que seja de bom tom da minha parte
- nunca pensei que fosse -
a ideia de só eu poder te ver dançar
é que faz arte o seu passar,
e nem quero
então, te peço
seja
como
for
só não deixe de brilhar.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Pode ser que seja tudo, ou nada. Pode ser que nem seja.

Quem te garante que as suas escoras
não são apenas estórias 
que você mesmo criou
pra limitar o teu poder?
Quem vai dizer que as minhas escoltas
não são apenas respostas
dos medos que eu aprendi ter?
Quem sabe ao certo,
bem de perto
que o que eu vivi
é tudo que eu já vi?
Se pode ser tudo criado,
só me esperando parado
e já estava pré-destinado 
a fazer curvas e rimas.
Se minha vida já tem onde desaguar,
como é que eu posso saber que sou eu quem está
no barco a guiar?

domingo, 17 de maio de 2015

Um tiquinho pra chegar, espero o dia não acabar

esperar um pouco
pra sentir seu 
corpo
faz parte.
faz arte,
sua mão em mim,
nossos beijos
sem fim.
proclamar com maestria
o fim do dia
com a nossa alegria
pro mundo todo saber
que eu quero é você
me desculpe a monarquia
(e a rima pobre)
mas você é minha rainha
mesmo não sendo nobre.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Dois pra lá, e dois pra cá

Me deixa ser seu par,
eu não quero te ensinar a amar
não tenho a pretensão
de ser sua paixão.

Olha, não me leve a mal
mas eu só quero dançar.
Eu prometo,
eu não vou voltar.
Nem amanhã, 
e nem depois.

E você,
nem precisa se preocupar em pensar em nós dois.

Eu só quero me acabar,
então por hora,
me permita ser seu par.
Eu só quero sambar,
pois já cansei dessa valsa de amar.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Os apostos me atraem

Eu estava deitada no sofá e me sentia indisposta, mas nem tão indisposta assim, então ela veio e começou a reclamar sobre as contas que estavam muito altas, mas nem tão altas assim, pois eu passava o dia todo assistindo TV e comendo tudo, nem era tudo assim, e fazendo muito barulho com a minha guitarra, mas nem era tanto barulho assim, reclamava da bagunça do meu quarto, que nem era tão grande assim e nem tão bagunçado assim, falou também que eu parecia uma retardada, mas nem era tão retardada assim, com esse cabelo desgrenhado, mas nem tão desgrenhado assim, e que nada na minha vida ira dar certo, porque eu nunca planejava nada, e tudo precisa ser planejado, mas nem tão planejado assim, e que eu nunca arranjaria alguém, mas se fosse pra ter alguém como ela, eu preferia não ter mais ninguém assim.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Inale amor, expire dor

Eu tenho um lado alado 
você me diz ter um cético,
te mostro meu lado assimétrico
demasiado poético.
Faço de cigarro tua boca
e te trago pra mais perto, 
já que a fumaça desse corpo
fez-me fumante esperto.

Descobri que inalar amor em nada afeta 
esses meus pulmões de merda.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Eu sou todo mundo

Eu sou esse fluxo que leva as pessoas a um lugar comum e totalmente desinteressante, mas que sempre existiu e sempre existirá. Eu sou o poema que só fica na mente, ainda por ser escrito. Sou a ausência doída, sou o rapaz que finge que dorme no trem pra não dar lugar a velhinha que acabou de entrar no vagão. Eu sou o filho da puta. Eu sou o acento sobressalente na palavra, a vírgula mal colocada, que torna a expressão ambígua, o ponto que finaliza o que mal começou. Eu sou sua melhor ilusão. Eu sou o cigarro que você fuma, a fumaça que entra em você. Eu sou o choro estridente da criança com fome, que não tem ninguém pra lhe ajudar, que não é notada pelos demais. Sou o homem de pouca fé. Sou a personagem que não queria crescer. Sou loucura, sou excesso, sou intensidade, sou dúvida, medo e crueldade. Sou a história real, de um conto distorcido, exposto numa mesa de bar. Sou a mentira confortável, e a verdade inconveniente. Sou a saudade de uma só parte, sou a ideia errada que fizeram de mim.

Eu sou essa gente que anda contra o fluxo, pra um lugar totalmente diferente, mas que foi inventado pra isso. Eu sou o poema pela metade. Sou a presença ausente, sou a velhinha que fica em pé no trem ao lado de quem está sentado, esperando que lhe cedam lugar. Sou a puta que te pariu. Sou a vírgula que te para, e te impede de se manter na velocidade de sempre. Sou o ponto que não se encaixa em lugar nenhum. Eu sou só sua projeção.  Eu sou a enfisema no seu pulmão. Eu sou aquela que nota a criança com fome, mas que finge não notar. Eu sou a mulher que perdeu a esperança. Sou aquela que não queria ser criança. Sou a história que jamais será vivida. Sou sua sensatez, a falta, a certeza, a coragem e a bondade. Sou a mentira inventada, a meia verdade. Sou a parte que sente saudade, sou a errada, que não faz ideia sobre si própria.


Eu sou essa gente que anda a favor do fluxo, que se deixa ser levada e nem sabe pra onde.  Eu sou o poema inteiro, que foi lido pela metade. Sou a solidão lado a lado, a saudade com presença. Eu sou quem levanta pra idosa sentar. Sou a mãe que pariu tristeza. Sou o acento que foi retirado da plateia. Sou seu silêncio doloroso. Seu ponto final que corta a frase ao meio, mesmo quando não terminada. Eu sou a fé que acabou de fugir do homem.  Eu sou aquela sem preferências, que cansou de discussões com a vida, e que a vida cansou de discutir. Eu sou a saudade desmedida, o beijo de despedida, a mentira mal contada, e a verdade despida. Sou total esquecimento, ainda que sempre em recordação. Sou o oposto do que pensaram de mim, eu sou o que vocês são.

domingo, 27 de julho de 2014

Meu eu lírico adúltero

Me desculpe meu amor, 
mas eu lhe traio, sem pudor

tenho uma caso com as rimas,
marco encontro pelas esquinas
me esqueço com elas
me aqueço em suas pernas

desço por todo seu corpo,
com os lábios a entoar
aquilo que o peito sente
e que a boca vem a falar

Passo as mãos por entre os versos
sem medo de ser descoberta
leio, ouço, vivo e vejo
aquilo que me desconcerta

danço em festas às escuras
me espreito com elas, sem nenhuma frescura
me perco em seus versos, 
e esqueço toda a ética, ora, o que me resta
senão a licença poética?

Meu amor, você há de me perdoar
pois ainda que com elas, 
penso sempre em você.
As rimas são minhas meninas,
mas é por ti que vou escrever.

Agora pouse seus olhos em mim,
em um minuto chegaremos ao fim,
enquanto lhe dou meu melhor sorriso,
e te convenço que és o que eu preciso
meu amor, meu bem, continue aqui
Pois, não há poesia no mundo, que me leve pra longe de ti.

domingo, 29 de junho de 2014

Presente da Deusa

- cê tá me entendendo?
- eu também te amo.

Eu não sei quais astros se juntaram pra isso, qual placa tectônica se moveu, ou qual evento extraterreno aconteceu. Eu só sei que, a Deusa acertou muito, muito bem. E há quem acredite em inferno astral, e há quem acredite que esse mundo é o inferno, e há eu e você. Haja eu e você. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Descobri eu e você

a saudade é apertada,
a garganta, nem se fale, totalmente, fechada
mas o peito tá aberto, e não tem hora pra fechar
pode vir, chega mais perto, tem um lugar pra você se deitar

o amor também se cobre quando chove
e também chove amor em quem se descobre
descobre eu, e descobre a si mesma
que a gente se invente, antes que você se esqueça
que a gente se encontre, antes que desapareça
que o amor se cubra da gente até onde puder,
e que a gente se cubra de amor, até quando não couber

meu bem, tenho andado em um estado de puro torpor
se cobre de mim, e do meu amor
eu te descubro, a cada segundo
deito em você, e viajo o mundo.


terça-feira, 20 de maio de 2014

Vários choques simultâneos de realidade cronologicamente narrados

Aos 4 anos eu dançava axé com meus primos na varanda da casa da minha avó. Aos 9 eu dançava na escola o que quer que as meninas estivessem ouvindo, aos 14 eu não dançava nada. E aos 18 eu não dançava por imaginar que tinha tomado vergonha na cara. Aos quase vinte, vejo que vergonha na cara é outra coisa, e vem sem bula nem prescrição, e danço quando o nível de substância etílica no sangue é maior que 0,06%.
Aos quase 5 eu cortei a mão com uma garrafa vidro e tomei mais de 10 pontos. Doeu, mas não como as tapas na cara da minha mãe pra aprender a ser o que a sociedade nos cobra aos 14. (Sim, é muito importante seguir os padrões impostos, principalmente nessa idade). Caso contrário, é vexatório, humilhante, e denigre tudo que seus pais um dia começaram a construir. Hoje, com quase 20, já tomei mais de 50 pontos no corpo todo remendado, e carrego comigo cicatrizes eternas, que arranjei em uma busca pela ausência de dor física.
Aos 6 eu apostei com os meninos que colocaria uma minhoca seca na boca, e engoliria uma mamona. Aos 7 eu ganhei a primeira parte da aposta, a mamona não desceu. Diferente de mil outros desaforos que desceriam garganta abaixo durante os próximos anos...
Aos 11 eu ganhei as minhas primeiras flores, e se eu soubesse o quão raras eram, e o que significavam, eu não teria pisado nelas... Muito menos jogado fora. Aos 17 eu dei flores pela primeira vez, sem ainda saber o que significavam e o quão raras eram...
Aos 15 me apaixonei pela primeira vez, e gostaria de ter lido Machado naquela época... Pois  aos 15, tudo é infinito, e comigo, não foi diferente...  Aos 19 acabo de me apaixonar de novo.
Os demais foram encantamentos com durações que variavam entre 12 horas e alguns 50 dias... Culpa de alguma maldição, ou bruxa desocupada chamada Carência. Não estou ansiosa pra próxima vez que esse evento vai ocorrer. 
Aos 4 anos eu queria ser médica.
Aos 10, veterinária.
Quase nos 20, e no meio de uma graduação de Economia, quero ser qualquer outra coisa, exceto: Economista.
Aos 13 eu sabia que nunca iria fazer as vontades de ninguém, ceder a chantagens emocionais, que jamais me acostumaria com alguém me cobrando algo que eu não quisesse fazer, ou acabaria indo embora às 23h da noite caso alguém me mandasse embora, quando notarem que o amor acabou.
Aos quase 20 eu vejo que pensar isso foi uma das maiores estupidez (dentre as tantas que já cometi), e que eu estou à deriva pra tudo. Desde dizer que “sim”, sobre um contrato social indicando ali meu pacto com o sujeito, e até mesmo, lavar roupa, quem sabe, pois é isso que as pessoas tendem a fazer para manter relacionamentos: negar, ceder, afirmar, acostumar...
Aos 14 eu queria sumir de perto dos meus pais. Aos quase 20, quero tê-los por perto sempre que possível, salvo raras exceções.
Aos 13 fumei meu primeiro cigarro. Um ano depois, fumei meu último cigarro.
Aos 17 fumei meu primeiro cigarro de novo...
Aos 7 anos eu era CDF em negrito e itálico, e tinha as melhores notas da escola. Aos 16 nem ia à escola...
Aos 14 anos quase morri, pela primeira vez. E espero que aos 50, essa tenha sido a única vez ainda... Terminei aos 15 meu primeiro relacionamento, mais rasa do que antes, e mergulhei de cabeça em alguém tão profundo, e eu nunca ansiei tanto pra que alguém me amasse de volta... E acabei aprendendo que amor não se anseia, não se pede, e também não tem bula, mas é receitado pra tudo.
Sim, foi um ano tumultuado. 

Aos 15 eu não fazia a mínima ideia do que eu queria da vida, atualmente, além disso, não faço a mínima ideia do que a vida quer de mim.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Já faz tanto tempo

Já faz uns dois copos,
que cê me disse que ia.
Já tem mais dois maços, que aquela
minha dor
você já não sentia.


Já dei uns dez passos pra esquerda,
e não te encontrei.
Entrei no meu quarto, olhei pro teu canto da cama
deitei, e chorei.

Já faz uns dez meses,
que você sorria.
Já tem mais ou menos um ano,
que eu ainda te amo.



sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Deveria ter ido me deitar

Eu só sinto sua falta, quando cai a noite. Sabe? É quando cai aquela ficha de “tô sozinha”, e aí eu desejo você por aqui. No resto das horas, é tudo normal. Mas quando os ponteiros solitários batem, meus demônios se juntam para sussurrar coisas em meu ouvido, enquanto o meu anjo sabe que o certo é me deitar. Mais dois copos. E eu te ligo. Você não atende. Talvez tenha sido um presente de Deus isto. Mais alguns drinks pra dentro, e a falta que eu sentia de você, só aumenta. Já não existem mais ponteiros, e neste momento todo o relógio se transforma em horas solitárias. Mais um copo, e só Deus sabe o que eu diria. Eu te ligo. Você atende. Eu deveria apenas ter ido me deitar. E eu nunca deveria ter te ligado. Deveria ter ouvido minha cabeça quando ela disse “deixa isso pra lá”. Não, eu mandei mais quatro, cinco, seis drinks pra dentro. E aqui vou eu, sentindo sua falta novamente. O dia todo, todo dia, eu esqueço de você. Eu nunca faço questão de pensar em você, te mantendo bem distante de mim, e da minha realidade. Mas sabe essas noites em que estamos deprimidos, pra baixo? Isso, essas noite solitárias. Você é tudo que eu consigo pensar (e querer). E eu não consigo controlar esse pensamento de “eu preciso ter você de novo”. Então eu vou acabar com sua noite, já que você matou a minha.
Então eu encho mais um copo, onde quer que esteja. Conforme o líquido avisa ao estômago o que a cabeça pensa, o demônio acorda com o sacolejo do cérebro pensando “vamos, vamos infernizá-la, por tudo que ela já fez. Não foi o suficiente.” Eu sei que, eu deveria ter desligado as luzes, trancado a casa, me deitado na cama, e eu sei que eu deveria ter ido dormir. Mas, lá estava eu, sentindo sua falta de novo. Amanhã, no encontro marcado com o ponteiro solitário, acontecerá novamente.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Eu não minto, demais

Eu quero mesmo é te desarrumar, lhe arranhar,
lhe bater,
mastigar
e te despir.

Eu gosto mesmo é de você, de zombar,
azucrinar-te,
instigar-te
e de mentir.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Constantemente Inconstante

e hoje que eu acordei,
completamente apaixonada por você.
amanhã, nem ouse aparecer.

e hoje que eu anseio, mais um segundo com seu corpo,
certamente amanhã, tentarei
atear-te fogo.

me perdoe por ser assim,
constantemente inconstante, sem fim.

você nem leu, 
mas na porta da minh'alma, constava um aviso: perigo!
 mantenha distância.
mas logo abaixo, em letras pequenas:
se apaixone, em última instância.



segunda-feira, 25 de novembro de 2013

E quando é que chove você a cântaros?


As nuvens nesses dias em que a chuva vai embora, parecem desenhar rostos que eu nunca saberei interpretar. Todos têm expressões simples, e enigmáticas, e eu sempre me confundo se sorriem pra mim, ou se estes caras-das-nuvens sentem dor. Talvez as nuvens não desenhem é nada. Ora essa, nuvens não sabem desenhar. Não como você.
Mas as nuvens ao menos, me entendem. Elas me ouvem, como se ouvissem uma melodia. As vezes a melodia soa um tanto perturbadora, e as nuvens fogem um pouco. Vão mais pra lá, onde eu não consigo enxerga-las, mas acho que ficam curiosas com o final da história e acabam voltando. Ou talvez as nuvens nem me ouçam, com essa distância imensa dos ouvidos da troposfera até minha boca, ou talvez eu seja desinteressante. Ora essa, nuvens não tem ouvidos e tampouco foram feitas pra ouvir. Nuvens não se interessariam em mim, não como você.
Mas não importa nada disso, pois as nuvens aparecem nos meus sonhos, mesmo quando não chove. Mesmo quando eu estou acordada - desde pequena cultivo esse hábito de sonhar acordada. Disseram-me ser prejudicial a cabeça, talvez seja mesmo, talvez não, também me disseram que usar desodorante aerossol era prejudicial ao meio ambiente,  e que só amamos uma vez na vida. – Mas penso com bastante frequência nas nuvens.  Não como em você. 

Poderia viver nas nuvens, mas não seria o mesmo que viver em você. As nuvens não tem braços que me abraçam, e me fazem sentir em um ninho. Não mesmo, as nuvens não me aninhariam. Aliás, nuvens são feitas de algodão, algodão não aninham ninguém.

Nuvens não recitarão poesias pra mim, e se recitarem, logo eu, que não consigo desvendar nem suas expressões, será que serei capaz de entender a língua das nuvens como entendo tua língua mesmo calada? Leio cada palavra que você gostaria que saísse de sua boca, em seus olhos, e meu Deus, este dialeto que só nossos olhares conhecem, não, eu nunca teria isso com as nuvens.
Mas as nuvens chovem em mim, quando eu estou com saudades. Por que você não se chove toda em mim, nesses dias nublados e cinzentos, ou nos azuis e ensolarados de surpresa?
 



Eu juro que eu não pego o guarda-chuva, mesmo com a certeza de que iria chover a cântaros, alagando tudo de você. Alegrando tudo com você.


sexta-feira, 28 de junho de 2013

No pé o céu de um parque a nos testemunhar... Acabar.


Eu acho que ninguém nunca soube falar ao certo qual o gosto que o amor tem. Mas sei que aquela espera tinha um gosto azedo, quase intragável e forte. Talvez o amor tenha gosto de iogurte quando passa da validade. Talvez um amor de tantas rugas quanto aquele que estava em mim tenha um gosto mais adocicado ou menos azedo, se aproximando até de um sabor agradável, caso as circunstâncias fossem diferentes.  Talvez o amor tivesse um gosto de todas as coisas que eu gosto, e seja assim pra todo mundo. Comecei a pensar nas coisas que eu gosto e me dei conta que gosto de tomar café em copo, e de cheiro de plástico novo, mas logo essas coisas banais me levaram a você, pois sempre fora assim... Não importa o quão banal, idiota, sujo e indescritível seja o pensamento, ele sempre me guiara pra algo que, em algum número bem pequeno, tinha alguma probabilidade de  isso fazer parte do teu dia, e aí as portas pra me imaginar contigo eram abertas, e o esforço pra fechar era tanto, que eu preferia apenas assassinar o tempo e os dias com a cabeça lá em você. E cá estava eu. O parque, era o mesmo, eu era a mesma, e ele também. Éramos?
 


Eu não conseguia imaginar o que se daria após aquele encontro. Durante alguns momentos, a cabeça estava planando sobre as nuvens, mais ou menos nuns 5 anos atrás, e de repente, a turbulência se aproximou, e ai de mim, de você e de quem mais estivesse disposto a assistir o final daquela história.  Afinal, era a história que eu sempre quis contar,e uma história sem drama, não é história. Eu repetia como um mantra, na esperança de que, o intervalo de  5 anos se tornasse apenas uma breve pausa do nosso conto de fadas, e ao passar os maus bocados, estaríamos alforriados. Eu e meu príncipe.
 

É claro que, meu príncipe não tinha um cavalo branco, e nem um castelo com um fosso em volta, pra zelar por nosso amor e proteger de outros males como dragões, bruxas malvadas, doenças tropicais e ex-amores psicóticos. Meu príncipe tinha exatamente a quantidade de cabelos necessários  na cabeça para me fazer feliz, naquele penteado muito moderninho, seu castelo se resumia a um apartamento no Jabaquara, ainda na companhia de seus pais, e sem nenhum fosso em volta. Ele permanecia cortês, como manda o figurino. Eu esperava encontrar ele e contar tudo isso. Contar como a galáxia se expandia quando nós estávamos juntos, e todos planetas que nós conhecemos, e até os mais anônimos,  encontravam uma perfeita sincronia cada um em sua órbita, ditando as regras daqueles astros em algum lugar lá em cima, e que provavelmente isso não teria nenhum efeito em qualquer evento terreno, e muito menos em  nós dois, mas que deveria ser tão bonito quanto eu e ele. E eis que depois do primeiro contato, me vi parada no meio do Ibirapuera com a sensação de ter encontrado a mim mesma.
A culpa não era dele. Ou talvez fosse, já não me interessava mais. A reflexão necessária para a compreensão dos fatos era tanta, que quando ele perguntou “Quer beber alguma coisa?”, a resposta foi instantânea “Um vinho, uma vodka, uma cerveja. Ou os três juntos!”. O que ele tinha, e onde ele largou isso tudo? Meu Deus, onde se escondeu aquela utopia de uma vida monogâmica em que eu me vejo perdidamente apaixonada por você, pelo seus beijos e pelo seu jeito –que a propósito nem me atraía mais - prepotente ?  Estava eu perdidamente envolta  por um príncipe criado por mim mesma?

Me senti envelhecendo 50 anos. Afinal, perdi 5 anos presa a um romance que sequer foi o primeiro, e jamais poderia ter sido o último. A ilusão de que a vida nunca mais seria a mesma depois de você me fez faltar a tantos ensaios de novos amores, me fez perder tantas chuvas de verão e tantos beijos de fim de tarde. E o que você tinha, querido? E onde e quando você perdeu aquela máscara apaixonante, que me deixava aos seus pés? Por favor, traga-a de volta! Eu preciso viver aquele amor novamente, tire esse sabor intragável da minha boca, e me mostre o que você tem de melhor! Algeme minhas mãos à canetas que somente escreverão cartas e poemas a ti, sequestre meus pensamentos e rimas nada categóricas de forma que estes também só retomem a mon amour, e transforme todos os segundos em uma única espera novamente, aquela que me levaria até você... Seria tarde demais pra isso?
Não era o que você tinha, e se perdeu. Era o que faltava em mim. E seria clichê demais dizer que faltava maturidade, mas faltava também a capacidade distinguir um amor de verdade de um casinho inesquecível. A sensação de amores perdidos, e ensaios amorosos mal feitos que poderiam ter tido muitos finais felizes mas que ficaram pra depois, culpando sempre a este que sequer teve final. Fui embora levando comigo a sensação de ter amado demais (pra porra nenhuma), e você levando suas ideias baratas e pró-modernismo e defesa dos pensamentos comuns que encontramos em qualquer esquina, em qualquer jovem pseudo-intelecutualóide atualmente.

Fui embora, com a certeza de que passaria uma vida ao seu lado, mas não esta.
 Se este era mesmo o amor, ficou perdido em algum lugar entre eu e aquele fosso invisível que separava meu castelo do resto do mundo, ou cansou de ficar preso ali, junto comigo, e pegou a primeira estrada que livrava ele daqueles livros empoeirados de poesia infantil, preferindo alguma aventura melhor, como atravessar os sete portões do inferno, ou decidir o que é mais precioso e maior que si mesmo. E lá estava eu, questionando quando o amor me deixou, sem ao menos virar a cabeça pra ver que ele estava indo embora, pensando em coisas triviais, romances fogo de palha, e no iogurte vencido na última sexta-feira na geladeira, que agora se tornavam coisas tão mais importantes que você, e o nosso reencontro.